Pontos de vista

O poder da tecnologia para o bem ou para o mal depende de quem a controla

Garry Kasparov, 21 Dezembro 2016

As ferramentas para criar, obter e distribuir dados também podem ser usadas para influenciar, monitorar e perseguir. São dois lados da mesma moeda.

Publicado originalmente no The Parallax.

Com frequência esquecemos que a tecnologia é uma espada de dois gumes. Junto com os benefícios de cada passo à frente vem a possibilidade de que seja utilizada para finalidades destrutivas. O Estado Islâmico constrói seus próprios drones, redes zumbis sequestram eletrodomésticos para derrubar a internet, publicações suspeitas na internet levam a que falsas notícias falem mais alto nas redes sociais do que as verdadeiras notícias. Cada vez mais vemos esse panorama no mundo da mídia. Poderosas ferramentas que dão às pessoas novas capacidades de criar, obter e distribuir informações são adotadas rapidamente pelas agências governamentais e corporações para exercer influência, coletar dados e monitorar as comunicações.

Devemos ver esse progresso como duas faces da mesma moeda. Quando comemoramos o lançamento de um novo smartphone, não devemos deixar de pensar que o seu mais recente aplicativo de rastreamento de localização, ou que a sua tecnologia de conectividade, ou que as suas funções na nuvem ou que o seu assistente virtual, junto com o aumento da produtividade pessoal, carregam consigo uma grande possibilidade de abuso de poder.

Os perigos que a tecnologia moderna apresenta são mais insidiosos do que aqueles sofridos pelas gerações que nos precederam. Enquanto que a ameaça nuclear era facilmente demonstrada pelas imagens de aniquilação de um cogumelo atômico, não dispomos de uma comparação para o que acontece nos dias de hoje, não há um símbolo que resuma os danos que as armas digitais podem nos trazer. Temos de estar preparados para todos os tipos de ameaça que possam aparecer.

Não estou dizendo que será melhor desistir de todas as vantagens que conseguimos e voltar para um tempo em que a nossa privacidade estava mais segura. Além de que isso é impossível, significaria desistir de todas as melhorias de produtividade e padrões de vida que a nossa tecnologia tornou possíveis.

Nos dias de hoje, um internauta pode saber, a qualquer momento, sobre quase qualquer evento que for publicado, em qualquer parte da Terra. Esta incrível façanha de inovação era impensável há uma geração atrás. As ferramentas de informação nos conectam com enormes redes de interesses compartilhados, causas, sonhos, muito além dos nossos círculos sociais imediatos e os limites geográficos.

Mas os governos repressivos podem se apoiar nas mesmas tecnologias para coletar enormes quantidades de dados de comunicação, barrar protestos muito antes que eles aconteçam, infiltrar-se nas redes sociais com propaganda subliminar da sua visão do mundo.

A solução não é parar a inovação em um esforço disfarçado para manter as ferramentas essenciais longe das mãos dos criminosos. Pelo contrário, precisamos implementar as tecnologias de segurança mais criativas que tivermos – e continuar a desenvolver outras novas – para preservar o extraordinário panorama que a comunicação criou e também para mantê-lo livre dessas interferências.

No fim das contas, como sempre, é uma questão de valores. A tecnologia em si é agnóstica: tem poder para fazer o bem ou o mal, dependendo de quem a controle. Isso sempre foi assim. Os combustíveis fósseis poluem, os antibióticos levam às superbactérias resistentes e um exército de cafeteiras inteligentes pode derrubar metade da internet.

Cada nova invenção traz efeitos colaterais, requerendo outro ciclo de inovação para colocá-la de novo nos trilhos. É um ciclo eterno. Não podemos voltar atrás: temos de dar um passo adiante.

Para preservar o mundo em que queremos viver – um mundo que se caracterize pela independência, liberdade e progresso crescente – temos de ficar de olhos abertos a quem tem acesso à tecnologia disponível: ditadores e terroristas descobrem novos caminhos para disseminar as suas ideias. Como não conseguimos manter a tecnologia em nossas mãos, temos de fazer todo o possível para protegê-la dos crescentes perigos que a ameaçam.

Uma coisa é ter informações coletadas pela Justiça, que está sujeita à observação de um governo democraticamente eleito, uma imprensa livre e organizações que monitoram a sociedade. Outra coisa muito diferente é que agências como a KGB em governos autoritários tenham acesso a essas informações. No primeiro caso, talvez não queiramos que a nossa informação esteja acessível às autoridades, mas no segundo caso, não temos como evitar que ela seja utilizada para objetivos nefastos.

Tudo isso leva a pensar nos riscos da privacidade e nas implicações geopolíticas de governos espionando os cidadãos. Eles usam a tecnologia para servir e proteger ou para obter vantagens e perseguir?

Ao utilizar os nossos telefones, dirigir nossos carros, descansar em casa, estamos constantemente produzindo mais dados que podem ser coletados, compartilhados e analisados. Exigimos privacidade, mas também queremos tecnologias de compartilhamento que podem comprometê-la. A única forma de equilibrar essas demandas é vigiar de perto quem está coletando as nossas informações e como elas estão sendo utilizadas. Quanto mais dados criamos, mais deveríamos vigiar aqueles que os coletam.

Como usuários tecnológicos e cidadãos, precisamos exigir que se tomem medidas para garantir as normas democráticas que todos valorizamos. A liberdade não é o preço que temos de pagar pelo progresso.

Na próxima vez que você ver notificações no seu smartphone, pense na incrível capacidade ao alcance dos seus dedos, no enorme potencial de melhorar as nossas vidas e na urgente necessidade que temos de nos proteger contra aqueles que querem usar tudo isso para o mal.