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Por favor, vamos parar de chamá-las de “fake news”

Byron Acohido, 6 Maio 2019

Campanhas de desinformação digital, que usam perfis de comportamento e redes sociais, estão aumentando e causando danos.

O hábito constante do presidente Trump de chamar de “fake news” as notícias das principais redes que ele não gosta, ajudou a confundir a definição precisa dessa força global profunda e obscurecer os danos sociais que esse fenômeno crescente está causando.

“Fake news” é a disseminação voluntária de desinformação. Sim, uma grande parte da propaganda política, praticada ao longo dos séculos, se encaixa nessa definição. Mas o que é diferente, à medida que nos aproximamos do final da segunda década do século 21, é que agora é possível desencadear campanhas de desinformação altamente segmentadas e globalmente distribuídas, aproveitando ferramentas de perfil de comportamento e as plataformas das redes sociais.

Como aparentemente tudo nos dias de hoje, essa é uma questão complexa e é preciso esforço para chegar à conclusão. Aqui estão três pontos vitais que todos os interessados precisam compreender sobre as campanhas de desinformação na era digital.

As fake news estão aumentando

Há muitos artigos fatuais sobre como as “fake news” influenciaram a eleição presidencial nos Estados Unidos em 2016. O que muitos ainda não percebem é que essa foi apenas uma das grandes eleições influenciadas por essa potente variante da disseminação da desinformação. Outras incluem o referendo sobre o Brexit na Inglaterra e casos muito recentes no Brasil e na Índia, onde campanhas de desinformação levaram a alguns resultados trágicos.

Nas eleições de 2016 nos EUA, a Rússia direcionou os usuários do Facebook para anúncios e histórias falsas e usou redes zumbi para facilitar a coleta e distribuição de informações. E os “supercompartilhadores” humanos entraram em ação também, tweetando histórias de sites ideológicos em um ritmo diário incrível, de acordo com um estudo feito pela Northeastern University, em Boston.

Enquanto isso, em janeiro de 2016, no meio da corrida presidencial, cerca de 39% dos seguidores do Twitter de Trump foram falsificados. Uma contagem da Twitter Audit mostrou que o candidato Trump tinha 22,7 milhões de seguidores no Twitter: 16,6 milhões de seguidores reais e 6,1 milhões falsos.

Agora vamos para as eleições presidenciais no Brasil, em outubro passado. O WhatsApp foi inundado com fake news sobre os dois principais candidatos. E nas eleições nacionais na Índia, que estão em andamento agora, a desinformação tem alimentado as emoções ligadas ao conflito da Índia com o Paquistão sobre a Caxemira. Notícias falsas sobre sequestros de crianças, disseminadas pelo WhatsApp, foram relacionadas a pelo menos 30 incidentes de assassinatos e linchamentos.

Os políticos não entendem

Vamos avaliar melhor a epifania recente de Mark Zuckerberg de que o Facebook precisa colocar o foco na privacidade. Dá para ler muita coisa nas entrelinhas.

O Facebook é o dono do WhatsApp. O WhatsApp se tornou a plataforma de redes sociais escolhida para se intrometer em eleições. Isso porque o WhatsApp criptografa postagens, então você não sabe quem enviou o quê a quem. E o WhatsApp pode argumentar que não é legalmente responsável por nada que apareça em sua plataforma.

Então, Zuckerberg decidiu que o Facebook adotará a prática do WhatsApp de criptografar todas as postagens e mensagens. Depois do escândalo com a Cambridge Analytica, ele diz que isso demonstra o novo compromisso do Facebook com a privacidade.

É improvável que o Congresso americano faça algo sobre isso. Os líderes políticos dos EUA parecem incapazes de compreender o fato de que as postagens criptografadas no Facebook tornarão quase impossível rastrear e deter o discurso de ódio e a interferência eleitoral, ao mesmo tempo em que desresponsabilizam o Facebook, do ponto de vista jurídico.

O que você pode fazer?

Cada um de nós tem o poder de uma pessoa. Como cidadãos individuais, todos podemos fazer o nosso pequeno papel para neutralizar isso. Primeiro, vamos parar de chamá-las de “fake news”, o que só aumenta a confusão. Explique isso para seus amigos e familiares como desinformação digital.

É o que a mídia britânica fez quando exagerou histórias sobre o estupro de mulheres inglesas para acabar com a rebelião indiana de 1857 e manter o colonialismo. E é o que o Ministério da Propaganda do Terceiro Reich fez para demonizar e exterminar judeus, ciganos, homossexuais e bolcheviques.

Fique alerta quanto às desinformações óbvias e faça o que puder para impedir sua disseminação. Verifique a fonte; questione a veracidade das manchetes; observe tentativas óbvias de aproveitar os medos das pessoas ou reforçar falsidades conhecidas.

Se tiver dúvida, verifique as notícias em sites confiáveis, como factcheck.org, que se dedicam a desmentir falsidades na internet. E, como sempre, clique com cuidado. Faça um esforço consciente para não se tornar parte da disseminação de memes virais, retweets e compartilhamentos do Facebook que são mentiras óbvias. Até breve.